COMO UMA ILUMINAÇÃO MAL PENSADA PODE DESVALORIZAR BONS ACABAMENTOS

Atualizado: há 4 dias
Já acompanhei uma situação que representa muito bem a diferença entre simplesmente colocar luz em uma casa e realmente pensar a iluminação.
Era um sobrado de cerca de 400 m², com ambientes amplos, todo planejado e com um investimento considerável em acabamentos. Havia porcelanatos de primeira linha, uma escada em pedra natural muito bonita e cuidado em várias escolhas. A arquitetura tinha potencial e o padrão do imóvel era claramente superior a uma solução básica de iluminação.
Mesmo com um projeto luminotécnico desenvolvido de forma personalizada, considerando as necessidades de cada ambiente e a valorização da arquitetura, o cliente, por ser leigo no assunto e querer economizar nessa etapa, acreditava que toda a iluminação da casa poderia ser resolvida basicamente com soquetes e lâmpadas bulbo tradicionais como fonte principal.
Em alguns pontos, a ideia era praticamente deixar a lâmpada aparente, sem luminária. Para mim, isso era muito discrepante em relação ao padrão do imóvel e aos investimentos que já haviam sido feitos. Pode parecer contraditório, não é? Um sobrado amplo, planejado e com materiais de qualidade, mas com a iluminação tratada apenas como algo que precisava acender.
O problema não era a lâmpada bulbo em si. Eu não gosto muito da ideia de transformar um produto em vilão, porque existem situações em que ele pode atender perfeitamente. A questão era esperar que uma única solução, sem trabalho de distribuição, direcionamento ou acabamento, cumprisse funções diferentes e, principalmente, revelasse a arquitetura da maneira que aquela casa merecia.

Quando o investimento existe, mas não aparece
A luz interfere diretamente na forma como percebemos um material. Uma pedra pode parecer mais profunda ou mais apagada. Uma madeira pode ganhar calor ou perder leitura. Uma parede com textura pode ficar interessante ou simplesmente desaparecer.
Isso não significa que a iluminação precise chamar mais atenção do que os acabamentos. Na verdade, muitas vezes acontece o contrário. A melhor luz é aquela que nos permite perceber o espaço, os materiais e as proporções sem que o recurso pareça competir com eles.
Naquele sobrado, eu tinha convicção de que a solução inicialmente imaginada pelo proprietário diminuiria a percepção de qualidade de tudo aquilo em que ele já havia investido. E não era apenas uma questão estética. Uma solução tão genérica também não responderia bem às necessidades diferentes de cada ambiente, comprometendo o conforto e o desempenho da iluminação no uso cotidiano.
O que mudou naquele projeto
Eu dediquei bastante tempo a conversar e argumentar com esse cliente. Com diálogo, orientação e explicando o motivo de cada decisão, ele concordou em seguir e executar o projeto luminotécnico que havíamos desenvolvido.
A proposta não era simplesmente colocar mais produtos. O projeto previa pontos distribuídos conforme o uso de cada ambiente, fontes complementares e iluminação de destaque apenas onde havia algo que realmente justificasse essa atenção.
A arquitetura continuou a mesma. Os revestimentos continuaram os mesmos. O que mudou foi a maneira como aqueles espaços passaram a ser percebidos e utilizados.
Esse tipo de experiência reforçou algo que eu já vinha aprendendo desde o início da carreira, quando trabalhei diretamente com iluminação: especificar uma fonte de luz não é uma decisão isolada. Existe sempre uma relação entre o produto, o ambiente, as distâncias, os materiais, o layout e a forma como as pessoas usam o espaço.
APROFUNDAMENTO: MINI GUIA DE ILUMINAÇÃO Se você está escolhendo acabamentos e iluminação ao mesmo tempo, vale olhar para a luz como parte da decisão, e não como um item separado. O mini guia reúne critérios que ajudam a perceber quando uma solução está coerente ou quando merece ser revista. |
A qualidade da luz também revela as cores
Existe ainda um aspecto que passa despercebido por muita gente: a capacidade da fonte de luz de revelar as cores com fidelidade.
É por isso que, em determinadas situações, um acabamento parece ótimo durante o dia e perde vida quando a iluminação artificial é acesa. Nem sempre o problema está no material escolhido. Pode estar na luz que está revelando esse material.
Esse cuidado é especialmente importante em ambientes em que pele, alimentos, madeira, tecidos, pedras e cores precisam manter uma aparência natural.

Iluminação não deveria ser a última decisão da obra
Quando a iluminação é deixada para o final, depois que forro, marcenaria e instalações já estão resolvidos, muitas possibilidades ficam mais limitadas.
O que me ajudou muito naquele sobrado foi o fato de a infraestrutura elétrica já ter sido executada de acordo com o projeto. Quando o cliente chegou à etapa final querendo comprar apenas lâmpadas bulbo, a casa já estava preparada para receber a iluminação adequada. Depois que conseguimos alinhar essa decisão, não foi preciso quebrar ou refazer a infraestrutura para executar o que já havia sido previsto.
Isso não significa que seja impossível corrigir a iluminação mais tarde. Significa apenas que o projeto perde liberdade e, em alguns casos, a obra passa a gastar com adaptações que poderiam ter sido evitadas com planejamento.
Eu prefiro que a luz participe da arquitetura desde o momento em que estamos entendendo o ambiente, o mobiliário e os materiais. Assim, ela deixa de ser um acessório acrescentado depois e passa a contribuir de verdade para o conjunto.
Boa iluminação não precisa significar mais produtos
Esse ponto é importante porque iluminação também precisa conversar com orçamento. No caso daquele sobrado, parte da resistência do cliente vinha justamente da tentativa de economizar nessa etapa.
Mas um ambiente não melhora automaticamente porque recebeu mais spots, mais perfis ou luminárias mais caras. Muitas vezes, posicionar melhor, escolher uma fonte mais adequada e separar os acionamentos traz mais resultado do que simplesmente aumentar a quantidade de peças.
Critério costuma ser mais valioso do que excesso.
Conclusão
Uma iluminação bem pensada não precisa competir com a arquitetura. Ela ajuda a revelá-la.
Quando luz, materiais e uso são pensados juntos, o investimento feito nos acabamentos passa a ser percebido com muito mais coerência. E, principalmente, a iluminação deixa de ser apenas algo que acende e passa a participar de verdade da experiência dos ambientes.
APROFUNDAMENTO: MINI GUIA DE ILUMINAÇÃO No mini guia de iluminação, organizei conceitos que considero importantes antes de comprar ou aprovar uma solução: função, temperatura de cor, reprodução de cor, facho, conforto, circuitos e condições de instalação. |
Por: Arquiteta Tatiele Pires CAU/BR: A120825-0





Comentários